quarta-feira, 3 de julho de 2013

A euforia perpétua: ou a obrigatoriedade de ser feliz


O mestre era adepto dos avanços da tecnologia, embora fosse consciente das suas limitações. Quando um industrial lhe perguntou qual era a sua ocupação, ele respondeu:
“Eu trabalho na indústria das pessoas”
“E o que é isso?” perguntou o industrial.
“Olhe para si.” Disse o mestre. “Os seus esforços são no sentido de melhorar as máquinas, os meus são no sentido de melhorar as pessoas.”

Mais tarde o mestre disse,
“O objectivo da vida deve ser o tornar as pessoas mais felizes, mas parece-me que estas estão apenas interessadas no aprefeicoamento das coisas, e não de si mesmas.”

A Minute Wisdom, Anthony De Mello


Estás bem?"
“Sim, e tu?”


Resposta simples, directa, quase reconfortante, não fosse o facto dela ser automática. É dita vezes sem conta, talvez na esperança vã da repetição compensar a falta de convicção.

Hoje todos somos felizes. Temos esse direito, ou melhor, essa obrigação. Sim, ser feliz tornou-se numa obrigação, talvez para compensar as outras que o homem moderno se descartou. Arranjamos os sorrisos “pepsodente”, prontos a ser usados em todas as ocasiões. Fica sempre bem e dá muito jeito, na rua, nos vizinhos, e sobretudo nos negócios. Estaria tudo bem não fosse o facto de por dentro muitas vezes nos apetecer chorar. Um aperto na alma que oprime ao ponto de às vezes ter vontade de explodir.

Algo está errado na sociedade moderna. Nunca tivemos um bem estar tão elevado, e contudo nunca vivemos tão amargurados, ansiosos, deprimidos e tristes interiormente. O que está mal? Será a nossa felicidade uma ilusão imposta ou estamos a iludirmo-nos a nós mesmos?

Construir uma sociedade com a premissa do hedonismo e da felicidade é conduzi-la à ruina. Não uma ruina moral, como a apregoada por Santo Agostinho na sua alegoria de Sodoma e Gomorra. Antes porque, essas são bases efémeras que carecem de consistência interior.

Mas porquê? Afinal o que há de errado em querer ser-se feliz? Não deve ser esse afinal o objectivo último da nossa existência? E o que está errado na procura do prazer? Devemos antes procurar o sofrimento, a auto-mutilação ou o sacrifício estóico como alguns ascetas míticos na esperança de nos “purificarmos”?

É claro que a resposta é um claro não. Sofrimento já teve a humanidade a mais! O problema é que estas questões estão, por assim dizer, mal postas. A felicidade não pode ser um fim em sim mesmo mas antes o resultado de um processo que se chama viver. É um subproduto do que fazemos, de como fazemos e de como  sentimos.

Imaginemos uma experiência na qual, através de uma estimulação sensorial adequada, o nosso cérebro seria induzido a permanecer num estado de satisfação e bem estar permanente. (De certa forma isso já foi conseguido em laboratório com ratos.) Seriamos felizes? É claro que não, pois tudo não passava afinal de uma ilusão, uma espécie de droga para iludir a realidade, à qual acabaríamos por nos tornar imunes.

Pensar que o prazer e a felicidade podem orientar a nossa vida tem algo de tão etéreo como a árvore das patacas ou a crença em soluções milagrosas. Então o que deve orientar a nossa vida? Não posso, nem quero, responder. Cada um terá os seus princípios, os seus valores: o amor, a amizade, a compaixão, a honestidade, a integridade, a sinceridade, a capacidade de perdoar. Valores que nos distinguem das máquinas. São esses os valores que devemos aspirar. Se os seguirmos a felicidade preencherá a nossa alma. Será uma mera consequência.

Não podemos ser felizes enquanto não percebermos que a felicidade não é algo a que se aspira mas que se sente, que se partilha, que se respira como o ar que nos envolve. A felicidade não é uma meta no fim do caminho mas o próprio caminho. Ser feliz ou não depende da nossa capacidade de construir esse caminho e, acima de tudo, de apreciar a paisagem.

Um paradoxo? Para muitos talvez seja. Sobretudo para aqueles que apresentam um raciocínio linear, que acham que tudo deve ter uma explicação, que pensam que a vida é um processo de optimização. Para aqueles que querem mudar o mundo sem se mudarem a si mesmos, para os medem as pessoas pelo seu status, pelo seu poder, ou pela sua aparência.

Mas, quem consegue sentir antes de racionalizar, aceitar antes de se revoltar, apreciar as coisas simples, que é capaz de medir as pessoas pelo seu coração e que sabem o significado da palavra compaixão, para esses, as minhas palavras certamente não serão um paradoxo, mas algo óbvio.

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